| 1 | Bem sabeis que daqui a dois dias é a páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado. | |
| 2 | Depois os príncipes dos sacerdotes, e os escribas, e os anciãos do povo reuniram-se na sala do sumo sacerdote, o qual se chamava Caifás. | |
| 3 | E consultaram-se mutuamente para prenderem Jesus com dolo e o matarem. | |
| 4 | Mas diziam: Não durante a festa, para que não haja alvoroço entre o povo. | |
| 5 | Aproximou-se dele uma mulher com um vaso de alabastro, com ungüento de grande valor, e derramou-lho sobre a cabeça, quando ele estava assentado à mesa. | |
| 6 | E os seus discípulos, vendo isto, indignaram-se, dizendo: Por que é este desperdício? | |
| 7 | Pois este ungüento podia vender-se por grande preço, e dar-se o dinheiro aos pobres. | |
| 8 | Jesus, porém, conhecendo isto, disse-lhes: Por que afligis esta mulher? pois praticou uma boa ação para comigo. | |
| 9 | Porquanto sempre tendes convosco os pobres, mas a mim não me haveis de ter sempre. | |
| 10 | Ora, derramando ela este ungüento sobre o meu corpo, fê-lo preparando-me para o meu sepultamento. | |
| 11 | Em verdade vos digo que, onde quer que este evangelho for pregado em todo o mundo, também será referido o que ela fez, para memória sua. | |
| 12 | E disse: Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei? E eles lhe pesaram trinta moedas de prata, | |
| 13 | E desde então buscava oportunidade para o entregar. | |
| 14 | E ele disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus discípulos. | |
| 15 | E os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara, e prepararam a páscoa. | |
| 16 | E, chegada a tarde, assentou-se à mesa com os doze. | |
| 17 | E, comendo eles, disse: Em verdade vos digo que um de vós me há de trair. | |
| 18 | E eles, entristecendo-se muito, começaram cada um a dizer-lhe: Porventura sou eu, Senhor? | |
| 19 | E ele, respondendo, disse: O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair. | |
| 20 | Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido. | |
| 21 | E, respondendo Judas, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste. | |
| 22 | E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; | |
| 23 | Porque isto é o meu sangue; o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. | |
| 24 | E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide, até aquele dia em que o beba novo convosco no reino de meu Pai. | |
| 25 | E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras. | |
| 26 | ¶ Então Jesus lhes disse: Todos vós esta noite vos escandalizareis em mim; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão. | |
| 27 | Mas, depois de eu ressuscitar, irei adiante de vós para a Galiléia. | |
| 28 | Mas Pedro, respondendo, disse-lhe: Ainda que todos se escandalizem em ti, eu nunca me escandalizarei. | |
| 29 | Disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, três vezes me negarás. | |
| 30 | Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja mister morrer contigo, não te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo. | |
| 31 | ¶ Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar. | |
| 32 | E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. | |
| 33 | Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo. | |
| 34 | E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres. | |
| 35 | E, voltando para os seus discípulos, achou-os adormecidos; e disse a Pedro: Então nem uma hora pudeste velar comigo? | |
| 36 | Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca. | |
| 37 | E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade. | |
| 38 | E, voltando, achou-os outra vez adormecidos; porque os seus olhos estavam pesados. | |
| 39 | E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. | |
| 40 | Então chegou junto dos seus discípulos, e disse-lhes: Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores. | |
| 41 | Levantai-vos, partamos; eis que é chegado o que me trai. | |
| 42 | ¶ E, estando ele ainda a falar, eis que chegou Judas, um dos doze, e com ele grande multidão com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo. | |
| 43 | E o que o traía tinha-lhes dado um sinal, dizendo: O que eu beijar é esse; prendei-o. | |
| 44 | E logo, aproximando-se de Jesus, disse: Eu te saúdo, Rabi; e beijou-o. | |
| 45 | Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? Então, aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus, e o prenderam. | |
| 46 | E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha. | |
| 47 | Então Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão. | |
| 48 | Ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos? | |
| 49 | Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça? | |
| 50 | Então disse Jesus à multidão: Saístes, como para um salteador, com espadas e varapaus para me prender? Todos os dias me assentava junto de vós, ensinando no templo, e não me prendestes. | |
| 51 | Mas tudo isto aconteceu para que se cumpram as escrituras dos profetas. Então, todos os discípulos, deixando-o, fugiram. | |
| 52 | ¶ E os que prenderam a Jesus o conduziram à casa do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos estavam reunidos. | |
| 53 | E Pedro o seguiu de longe, até ao pátio do sumo sacerdote e, entrando, assentou-se entre os criados, para ver o fim. | |
| 54 | Ora, os príncipes dos sacerdotes, e os anciãos, e todo o conselho, buscavam falso testemunho contra Jesus, para poderem dar-lhe a morte; | |
| 55 | E não o achavam; apesar de se apresentarem muitas testemunhas falsas, não o achavam. Mas, por fim chegaram duas testemunhas falsas, | |
| 56 | E disseram: Este disse: Eu posso derrubar o templo de Deus, e reedificá-lo em três dias. | |
| 57 | E, levantando-se o sumo sacerdote, disse-lhe: Não respondes coisa alguma ao que estes depõem contra ti? | |
| 58 | Jesus, porém, guardava silêncio. E, insistindo o sumo sacerdote, disse-lhe: Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus. | |
| 59 | Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre as nuvens do céu. | |
| 60 | Então o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou; para que precisamos ainda de testemunhas? Eis que bem ouvistes agora a sua blasfêmia. | |
| 61 | Que vos parece? E eles, respondendo, disseram: É réu de morte. | |
| 62 | Então cuspiram-lhe no rosto e lhe davam punhadas, e outros o esbofeteavam, | |
| 63 | Dizendo: Profetiza-nos, Cristo, quem é o que te bateu? | |
| 64 | ¶ Ora, Pedro estava assentado fora, no pátio; e, aproximando-se dele uma criada, disse: Tu também estavas com Jesus, o galileu. | |
| 65 | Mas ele negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes. | |
| 66 | E, saindo para o vestíbulo, outra criada o viu, e disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o Nazareno. | |
| 67 | E ele negou outra vez com juramento: Não conheço tal homem. | |
| 68 | E, daí a pouco, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente também tu és deles, pois a tua fala te denuncia. | |
| 69 | Então começou ele a praguejar e a jurar, dizendo: Não conheço esse homem. E imediatamente o galo cantou. | |
| 70 | E lembrou-se Pedro das palavras de Jesus, que lhe dissera: Antes que o galo cante, três vezes me negarás. E, saindo dali, chorou amargamente. | |